A aversão ao risco.
Todo capital é avesso ao prejuízo. Isso nos leva à outra lei que é a da aversão do capital ao risco.
Parece uma contradição que o empresário cultive a imagem de desbravador intemerato e resoluto que está sempre em busca de riscos e de grandes lucros.
Não é bem assim.
Uma coisa é associar o capitalista a grandes riscos. Outra coisa associar este comportamento aos visionários.
A escalada da empresa Microsoft somente foi bem sucedida graças ao Peter Balman, advogado e guru de Bill Gates, este um gênio da informática no setor de software, mas um ingênuo empresário.
Foi o advogado Balman quem orientou Bill a adquirir e destruir todos os concorrentes da Microsoft a começar pela própria IBM onde Gates começou vencendo uma licitação para fornecer provisoriamente o sistema operacional MS-DOD, para o primeiro computador desk top profissional de uma grande fabricante, a IBM, que pretendia substituir logo aquele sistema provisório, o sistema MS-DOS, pelo seu próprio sistema operacional, o Operanting System - OS.
Para neutralizar a IBM Bill se valeu de duas táticas em sua estratégia para isolar a IBM: forneceu o seu sistema MS-DOS grátis para 80% dos usuários de microcomputador da IBM e abriu a arquitetura de seu sistema para que qualquer empresa ou usuário pudesse estudá-lo e com isso poder criar cada vez mais aplicativos compatíveis com o seu sistema operacional.
Este sistema MS-DOS da Microsoft se tornou o padrão do mercado mundial somente sendo mais tarde superado pelo sistema Windows da então hegemônica Microsoft.
Quando o mercado já estava embriagado com o sistema operacional da Microsoft esta começou desenvolver novas versões e desta vez fechou o segredo e começou a processar quem o copiasse ou quem o copia e distribui cópias piratas e não autorizadas. O restante da história do Windows todos conhecemos.
Capitalistas são avessos aos riscos. Quem se arrisca são os aventureiros que não buscam o lucro, buscam apenas a aventura e a adrenalina para o coração.
Capitalista só pisa firme no chão onde outros já pisaram e foram bem sucedidos.
Um comandante de navio somente precisa saber o que ocorre em torno do seu navio até a linha do horizonte. Assim agem os capitalistas. Nunca se preocupam com o que acontece além da linha do horizonte.
Voltando ao horizonte, se não fossem os governos não teríamos muitos avanços significativos nas ciências. Uma única pesquisa para o desenvolvimento de matrizes leiteiras de mais de sessenta litros de leite bovino requereu na Holanda, cujo nome é Países Baixos, cerca de sessenta anos de retrocruzamentos e seleção de matrizes. Que empresa despenderia sessenta anos de pesquisa?
As pesquisas de peso são financiadas pelos governos, as pesquisas espaciais, as pesquisas astrofísicas que nem sabemos para quais fins comerciais servirão no futuro, e nem quando.
Todos os limites e divisas internacionais foram estabelecidos em guerras, todo o desenho das fronteiras foram resultados das ações estatais, porque o maior empreendimento da história são as guerras, e todas as guerras são ações estatais. Foram os Estados quem patrocinaram as expedições de descobertas de novos continentes: de Colombo, Vasco da Gama até Pedro Álvares Cabral.
Enfim, os capitalistas são imediatistas e impacientes, ao primeiro sinal de risco correm para o abrigo de seus capitais, os hedges. É esse comportamento de aflição agonístico que chamamos de mercado capitalista, outros preferem chamar de competição de mercado. É apenas e simplesmente comportamento predatório e anômico.
Há cerca de trinta anos decidi investir na bolsa de ações através de uma corretora por indicação do meu pai.
Ao invés de comprar um pacote de ações formatado com blue chips em preferi fazer a minha própria carteira de ações contrariando os conselheiros e os especialistas do mercado de capitais da minha corretora.
Depois de utilizar um algoritmo que eu mesmo criei, o qual mantenho até hoje em segredo, fiz pesquisas detalhadas e pormenorizadas nos diários especializados em cotação das bolsas de valores e escolhi duas delas para formar a minha carteira de investimentos.
Não tinha certeza alguma dos resultados, mas tinha uma diretiva que provou ser corretíssima. Os investidores e os capitalistas em geral são muito fáceis de serem manipulados por causa de sua impaciência para obterem lucros e por causa de seu comportamento de gado, ou seja: procuram estar sempre juntos com a corrente dos demais investidores e seguem tendências de movimentação dos grandes fluxos, nem sempre racionais e quase sempre sem consistência com a realidade das empresas e do sistema e dos ambientes financeiro e econômico.
Ao final as suas expectativas acabam acontecendo porque eles construíram artificialmente as condições para que as suas expectativas se autoconfirmassem.
Mas por pouco tempo.
Assim foi feito. Joguei ao contrário da corrente do mercado.
O que aconteceu? Sem que eu soubesse ou qualquer especialista desconfiasse as duas companhias as quais eu havia adquirido as ações e que ficaram em minha posse algumas dezenas de semanas sem que nenhuma movimentação anormal acontecesse com o pregão de variação no valor ou na quantidade daquelas ações despertasse alguma atenção ou interesse de qualquer corretora ou de qualquer especialista em ações e em qualquer especulador, eis que de repente a primeira daquelas duas empresas decidiu fazer uma reformulação internacional em suas atividades para racionalizar a produção. A outra empresa a qual eu havia procurado foi adquirida por um grande empreendedor e decidiu fechar o capital.
Do primeiro caso eu havia adquirido o lote de mil ações pelo preço de 0,80 da moeda corrente da época, em poucos dias o mesmo lote de mil ações subiu para 8,00 da moeda corrente. Seu eu as vendesse naquele momento obteria o lucro fabuloso de mil por cento, mas decidi esperara mais um pouco antes de vendê-las por 32,00 da moeda corrente, ou seja: lucrei quarenta vezes o valor investido em menos de um ano. As ações chegaram a bater o teto de 64,00 antes de se estabilizarem e depois descerem a um patamar mais decente.
O que quer que fosse que tivesse acontecido nada justificaria aquele aumento de oitenta vezes o valor das minhas ações!
Apenas uma combinação de comportamento de gado e excesso de interesse para uma quantidade limitada de lotes de ações que se tornaram momentaneamente uma simples expectativa de um possível bom negócio e todos pensaram a mesma coisa ao mesmo tempo.
Mas, o que pode ser muito bom para um pequeno grupo poderá ser um desastre para todos se todos pensarem e agirem ao mesmo tempo.
Mas o mercado não tem racionalidade alguma, apenas reage ao passado, não tem projeto trans-horizonte algum. Apenas é responsivo aos estímulos-reflexos irracionais.
Muito fácil colocar armadilhas para o mercado livre. Algumas leis severas existem para punirem os especuladores que sincronizam suas ações para induzirem o restante dos expectadores atraindo-os para uma armadilha especulativa. Mas nem precisaria de muito.
O mercado é imanentemente estúpido como o estouro de uma boiada.
A função dos governos seria ou deveria ser a de se descolar do mercado e criar demandas trans-horizonte onde o mercado sem o perceber estaria sendo moldado para agir e reagir em determinada direção predeterminada, mas quando os governos não conseguem projetar as tendências com a antecipação que se requer de um estadista então a profecia anunciada se autorealiza porque somos levados a autorealizá-las como o gado é levado inocentemente ao matadouro.
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